O mar do menino - Parte 3

de regresso à praia, por volta das 10h15. Ele, mais o seu pequeno irmão, arrastaram com uma boa dose de força, a canoa que os guiou e continuará guiando pelo mar fora, nas próximas viagens. O resultado da pescaria foi demasiadamente proveitoso para estabelecer-se desaproveitado. A mãe, que é ”palaiê” e costuma vender os peixes na feira de ponto ou arredores, pela capital, estava com a mão na cintura, numa pose matriarcal, perto do sítio onde a areia e o barro se encontram em exaspero. De olhos bem fixos nos filhos, esperando-os com um sorriso nos lábios, devido a retribuição que lhe foi passada pela cara de felicidade dos miúdos. Ela sentia-se orgulhosa e satisfeita com o facto de ver seus rebentos a cuidarem de si e da sua família, desde da mais tenra idade. Mesmo que muitos olhem para essa situação como uma exploração de mão de obra infantil, é priorizável dizer que existe uma política prazerosa no interior dessas crianças-crescidas, cuja aprendizagem as levam a sentirem-se capazes e importantes, dentro da estrutura familiar. Também coexistem na ideia de que a vocação e a capacidade de pesquisa, não é uma característica somente dos antropólogos e doutores de uma determinada ciência, pois pode ser inspirada pelas ditas classes menos valorizadas e mal posicionadas na convencionalidade da pirâmide das profissões.

Após ter cumprido sua missão naquela batelada azul-esverdeada, o catraio esperto espertíssimo, em vez de descansar o cansaço, acabou espoletando-o multiplamente, seguindo para o mato com os seus amiguinhos do peito, para uma expedição aos safuzeiros que iam reproduzindo imensos “safús” na época. Pretendia arranjar muitos deles, para serem vendidos, principalmente, aos mais ilustres cidadãos de Neves, e os restantes iriam ser levados à casa, onde seriam degustados pelos seus pais e irmãos. Trata-se dum estilo de vida agitado, mas que é vivido com a intensidade de quem ama fazer o que faz.
No momento em que voltava para o lar doce lar, quando a tarde ia se tornando mais escura e as estrelas se materializavam timidamente no teto do planeta, o menino de pele negra e africana deu um salto até a praia, para dar um mergulho gostoso na água salgada, saboreando a sua independência traquina e pensando no dia de amanhã, que espera vir a ser tão bom como o dia de hoje que, nas calmas, vai anoitecendo.

                                             Lauro José Cardoso

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