O mar do menino - Parte 1

De tanto observar seu pai no ato da pescaria, quando os dois iam de canoa, para o alto mar, ganhar tempo, a vida; através da quantidade de peixes a serem pescados e vendidos no principal mercado da cidade de São Tomé. O filho, de apenas 9 anos, aprendeu tal ofício quase genético, munido duma atenção curiosa que o fez saber como usar essa arte ao seu favor. As redes de pesca metamorfoseavam-se em instrumentos fáceis de serem manuseados, os remos que no começo pareciam duros, passaram a ser mais leves, pois as suas mãozinhas se tornavam auto-suficientes para esse tipo de trabalho. Dizem que a leveza do espírito consegue mover qualquer dureza física. O “anzu” do mar percebeu isso. E tão cedo vai iniciando a aplicação desse princípio.

Sob as regras do mar, não muito longe nem muito perto daquela praia em Neves, onde este miúdo esperto espertíssimo habituava-se pescando, no comando da canoa, sozinho, ou melhor, acompanhado do seu irmão de 7 aninhos. Que sem mais demoras, também irá com duvidosa certeza, seguir as mesmas “ondadas” patriarcais. Um destino traçado mas incerto, porque nem sempre um fruto do pescador, pescador é.
Mesmo expostos aos perigos da natureza, esses obreiros infantis encaram o desafio, o esforço, a pesca tradicional, e ainda por cima nadam como se o oceano fosse uma parte crucial dos seus pequenos âmagos. Uma respiração cheia de maresia, que os identifica e ensina o valor do trabalho honesto, sem precisarem passar pela escola. O conhecimento também brota de lugares onde nada se espera colher...
 

                     Lauro José Cardoso

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